Por Kazuhiro Kurita | 09 setembro 2018

Não bastassem os 13 milhões de desempregados, o País possui 63 milhões de superendividados, dos quais 46% já renegociaram a dívida e 54% nunca procuraram fazer um acordo, segundo levantamento do IDEC - Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor. A economista Ione Amorim diz que as principais causas deste fenômeno são o desemprego, a queda no nível de renda, a ausência de educação financeira e o uso do crédito para suprir a sobrevivência.

De 2014 para cá, houve aumento de desemprego, precarização das relações de trabalho, queda da renda média e aumento da desigualdade dos rendimentos. "Além disso, a reforma trabalhista trouxe uma piora nas negociações coletivas, tanto salariais quanto de direitos e benefícios, em um cenário de crise. Tudo isto colabora com o crescimento do superendividamento”, ressalta o economista do Dieese - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, Leandro Horie.

Para Ladislau Dowbor, economista e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), aliado a todos os problemas da ordem política e econômica é preciso destacar o apetite vergonhoso das instituições financeiras. “Dá a impressão de que a gente se endivida porque não sabe usar o crédito, mas não existe pessoa que possa aprender a usá-lo, pagando 100, 200 ou até 400% ao ano", afirma.

Leandro Horie e Ladislau Dowbor

Um dos maiores vilões deste fenômeno é o cartão de crédito, revela dados estatísticos do Procon, que oferece o Programa de Apoio ao Superendividado (PAS). Ele leva em conta apenas quem procurou o programa de 2012 a 2018 no Estado de São Paulo. Neste período, foram feitos 17.118 pedidos de renegociação, com acordo em torno de 60%. As causas principais das dívidas são por descontrole financeiro e desemprego/redução de renda.

Quem conseguiu um respiro é o engenheiro de produtos Marcelo Afonso. Seu martírio começou quando decidiu vender o apartamento quitado para comprar e reformar uma casa térrea, na Vila Matilde. A reforma demorou e consumiu mais que o previsto e ele foi financiando a obra. Até que, em 2014, a conta estourou, com dois empréstimos bancários e o cartão de crédito, que consumiam quase todo seu salário. Foi quando Afonso recorreu ao Procon, que negociou sua dívida em patamar que ele consegue pagar. Em julho deste ano, o engenheiro quitou um empréstimo e agora só restam dois, que não chegam a comprometer seu orçamento.

O coordenador do Núcleo de Tratamento do PAS, Diógenes Donizete, lembra que cerca de 60% das pessoas que procuram o Procon são os chamados superendividados passivos, ou seja, que entram nesta situação pela perda de emprego, falência de seu negócio ou redução de renda, entre outros motivos. Os demais 40%, como Afonso, são os descontrolados, sem influência de fatores externos. “Se endividam porque são consumidores compulsivos”, explica.

Para não entrar em dívidas, Donizete diz que é preciso respeitar os limites e ter o bom hábito de registrar todas as despesas. “Quando empregado, fazer uma reserva para quaisquer eventualidades. Quando tiver que comprar algo, juntar o dinheiro e comprar à vista sempre que possível. Se não der para esperar, não fazer um parcelamento muito longo para não pagar juros maiores. Se estiver desempregado, mudar o comportamento e o padrão de vida e consumir o estritamente necessário”, recomenda.

Se já estiver superendividado, o conselho é nunca entrar em desespero e não aceitar qualquer negociação proposta pelo credor. Discutir o valor a ser pago e verificar se ele é compatível com o orçamento. “Não adianta querer fazer um acordo para tirar a restrição do nome, por exemplo, e não conseguir pagar mais que três meses”, afirma Donizete, lembrando que quem estiver nesta situação pode procurar o PAS pelo site www.procon.sp.gov.br e clicar no ícone Apoio ao Superendividado. Se não tiver acesso à internet, pode marcar entrevista para inscrição no PAS (Capital) pelo telefone (11) 3824 7069.

Kazuhiro Kurita
é editor da Flamboyant Comunicações, formado em Publicidade e Propaganda e Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero.