Por Kazuhiro Kurita | 14 maio 2018

Embora a atual administração da Prefeitura de São Paulo tenha divulgado a diminuição da fila de espera de 30 mil crianças em creches no período de um ano e prometa a abertura de 14 mil novas vagas em dois meses, perto de 60 mil ainda não conseguiram uma vaga. Com isto, além de não garantir que os pequenos de zero a cinco anos tenham acesso à educação infantil, como apregoa o artigo 208 da Constituição Federal, também impede que muitas mães possam trabalhar por não terem com quem deixar os filhos.

Hoje, as mulheres desempenham papel importante no sustento de uma casa, compartilhando com o companheiro a responsabilidade financeira ou até mesmo como arrimo de família. Segundo sondagem do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), baseada no PNAD, o número de lares brasileiros chefiados pelo sexo feminino subiu de 23% para 40% entre 1995 e 2015.

Nos últimos tempos, a mulher vem conquistando com muita luta o direito de trabalhar. Ainda assim, enfrenta grandes dificuldades para mantê-lo. E um dos principais problemas das famílias de baixa renda é onde deixar seus filhos pequenos. 

Este é o caso de Flávia Oliveira dos Santos, de 31 anos. Quando teve o primeiro filho, hoje com 10 anos, trabalhava em uma grande rede do setor de Varejo. Como só conseguiu entrar em uma creche depois de dois anos de espera, quem cuidava do pequeno Robson era sua mãe, Marli. “Ela tem 67 anos, a saúde debilitada e quebrou o braço recentemente, por isso não pode cuidar da minha filhinha Sofia de um ano e oito meses, que está esperando por uma vaga há um ano”, lamenta ela, lembrando que uma eventual chamada pode ser para um endereço distante de sua casa. Neste caso, não teria como bancar uma perua escolar, mas, se não aceitar, volta para o final da fila.

Para Flávia, a saída talvez seja trabalhar em casa. “Minha irmã gêmea, a Fabiana, viu no Amarelinho um curso gratuito de cabeleireiro da Associação Paulista de Apoio à Família (APAF) e disse que era uma oportunidade única, pois ela acabou de fazer um pago”, lembra. No entanto, para ir às aulas de terça e quinta-feira não tinha com quem deixar a Sofia. “Fiz um acordo com a vizinha. Como ela tem uma filha adolescente, trato do seu cabelo e em troca ela olha a minha sobrinha”, afirma Fabiana. Apesar das dificuldades, e talvez por isso mesmo, a família e a vizinhança se unem nas alegrias e tristezas.

Quem também está esperando uma vaga há um ano é Isabella Jakstas Radi. Aos 20 anos, ela é mãe de Lorena, com cinco anos, e do pequeno Bernardo, de um ano e três meses. “Quem cuidou da minha filha até um ano e meio, quando conseguimos colocá-la na creche, foi minha avó, pois minha mãe trabalha como cuidadora de idosos. Agora, ela não dá conta do Bernardo”, explica.

O último emprego de Isabella foi como operadora de caixa em uma padaria, mas os constantes atrasos nos pagamentos do salário a fizeram pedir a conta. Antes, foi aprendiz em uma agência franqueada dos Correios. Hoje, precisa voltar a trabalhar para ajudar no orçamento da casa, apesar da ajuda do pai dos pequenos. “Ele mora com a mãe no Litoral, mas pensamos em nos juntar no segundo semestre”, planeja.

Outro plano de Isabella é terminar o ensino médio. “Parei de estudar com a gravidez do Bernardo, mas vou me matricular no EJA – Escola de Jovens e Adultos no meio do ano e terminar a série que falta”, promete. “Preciso ganhar pelo menos um salário mínimo para manter meus filhos”, diz ela, esperançosa de que uma boa notícia chegue o mais rápido possível. Afinal, todas suas amigas já conseguiram a tão disputada vaga para seus filhos.
Assim como Flávia, Isabella sonha com um Dia das Mães melhor que esse.








Kazuhiro Kurita
é editor da Flamboyant Comunicações, formado em Publicidade e Propaganda e Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero.