Por Viviane Ávila | 06 abril 2018

A exclusão social e do mercado de trabalho da população transexual, por meio de uma marginalização que os tornam extremamente vulneráveis, continuam alarmantes no Brasil. Apenas 10% das e dos “trans” estão ativos em empregos formais no país. As funções, geralmente são atrás dos telefones dos call centers, como atendente de Telemarketing, ou nos bastidores da limpeza e do almoxarifado. Em cargos de liderança, nunca.

Para sobreviver, os 90% dessa população que sobram, geralmente optam pela profissão mais antiga da humanidade: a prostituição. Tem também os que tiveram um pouco mais de estrutura familiar ou psicológica, e conseguem trabalhar em lojas fashion de público gay, por exemplo, ou em espaços de beleza.

“Ou, uma minoria, no meio artístico, como no meu caso, literário. Mas, em geral, é o que sobra. Eu me pergunto: O que capacidades, habilidades e competências têm a ver com identidade de gênero? Absolutamente nada, mas a sociedade e o mercado ainda não entenderam isso”, relata Sharon Cardoso, mulher trans, ilustradora e autora do e-livro O Divino Leviatã, ainda disponível somente na internet.

Os dados estatísticos são do ‘Relatório da Violência Homofóbica no Brasil, publicado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH), e também de uma pesquisa apurada pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

Em São Paulo, capital, a transexualidade começou a ser tratada como questão de política pública em 2015, ainda na gestão do ex-prefeito Fernando Haddad, por meio do programa Transcidadania. O programa oferece o ensino fundamental e médio pela Educação de Jovens e Adultos (EJA), cursos no Pronatec e aulas de Cidadania e Direitos Humanos. Alguns cursos e oficinas ofertados pelo Transcidadania são ministrados no Centro de Cidadania LGBT, situado no Largo do Arouche, região Central, ou em EMEF.

Em apenas dois anos, 300 vagas gratuitas foram oferecidas para as alunas e alunos do curso, que ainda recebem bolsa-auxílio no valor de R$ 924 mensais. Graças à dimensão estruturante à oferta de condições de autonomia financeira, preparação para o mundo do trabalho e formação cidadã e profissional. Mas, ainda é irrisório perto da exclusão transexual que ainda acomete São Paulo, e todo o país e o mundo.

O abismo entre a transfobia e a realização pessoal

Os motivos da exclusão transfóbica, segundo Sharon, são graves e consequências uns dos outros, como a falta de estrutura básica e de apoio familiar e dos círculos sociais, por um preconceito institucionalizado, que culminam numa marginalização que os tornam vulneráveis em todos os sentidos.

Sobre esse tema e um pouco da história de sua vida e realização pessoal e profissional, ela discorre em entrevista exclusiva, para o portal O Amarelinho.

Viviane Ávila – Como e quando você se percebeu trans?

Sharon Cardoso – Desde criança, sempre me identifiquei com o universo feminino. Mas, o processo de transição é muito complexo. Na grande maioria trans brasileira, a completa rejeição pelo que somos começa pela nossa própria família. Da minha infância até a juventude, antes da transição, fui muito reprimida e repreendida pela minha família, que é toda evangélica neopentecostal. Eles só me incutiam medo. Medo do demônio, medo de ir para o inferno, medo de ser eternamente um espírito nas trevas sem o merecimento do perdão, como se ser trans fosse um pecado, sem nenhum merecimento de compaixão ou de respeito pela minha condição e existência.

VA – Como foi a sua inserção no mercado de trabalho?

SC - Aos 16 anos, morava, estudava e trabalhava em São Paulo. Meu primeiro trabalho foi numa loja de calçados. Recebia um salário mínimo e, à noite, estudava em escola pública. Depois trabalhei como vendedor em farmácia e de seguro saúde. Em 2004, com 19 anos, entrei na Portugal Telecom, onde fiquei vários anos, primeiro como atendente de Telemarketing. Fui subindo de cargo até chegar a supervisor, aos 29 anos. Tudo isso ainda com aparência masculina, mas extremamente infeliz. Não conseguia mais fingir que eu não era quem sou de fato.

VA – Foi nessa fase que aconteceu seu processo de transição?

SC - Sim. Aos 29 anos, em 2014, cheguei no meu limite emocional ao não me sentir aceita, nem pela família, nem amigos, muito menos o mercado. Me senti sozinha no mundo. Resolvi enfrentar a vida e saí de casa. Não conseguia mais fugir da minha essência e natureza. Foi quando assumi a transição completamente, para mim e consequentemente para minha família. Tive uma conversa séria com meus pais, na qual estabelecemos uma linha de tolerância. Voltei para casa. Acabaram as profecias. Já não ouvia mais que ia para o inferno. Hoje, aos 34 anos, aos eles pelo menos respeitam quem eu sou. E eu sou bem mais feliz e realizada.

VA – Após esse período, como ficou sua vida profissional?

SC - As portas do mercado de trabalho formal se fecharam completamente para mim. Em vez de eu desistir de tudo, resolvi transformar essa situação limitante da minha vida em produtiva profissionalmente. Sempre quis ser escritora e desenhista e amei literatura e ficção. Foi então que decidi lutar pelo meu sonho. Eu não tinha computador nem notebook. Apenas o celular e um sonho. Foi então que escrevi O Divino Leviatã num aparelho “velhinho” que eu tenho até hoje. Juntei a fome, literalmente, com a vontade de comer, e dei um check mate no meu sofrimento. Decidi me amar, me empenhar com as oportunidades e ferramentas que eu tinha, na época, e entrei num processo criativo, enquanto trabalhava informalmente como cabelereira, maquiadora e manicure para sobreviver.

VA – Do que se trata o seu livro?

SC - O Divino Leviatã é uma ficção científica, que se passa num Brasil futurista com regime Monarquia, na qual a personagem principal é uma mulher negra, que vive numa sociedade entre o bem e o mal, entre o céu e o inferno. Foi baseado no livro “Leviatã”, do filósofo inglês Thomas Hobbes, publicado no ano de 1.651, e somado às minhas desconstruções. Desconstruí a questão religiosa da minha vida, com relação à intolerância que passei na infância até a juventude, no livro. Dei um toque lúdico na mitologia bíblica que me crucificava. Me libertei, sem blasfêmia, por meio da Arte literária. O próximo passo é lançar meu livro impresso e continuar investindo na minha carreira gráfica, como ilustradora e escritora. Atualmente, estou finalizando meu projeto de quadrinhos, cuja personagem Dina Dee.

VA - Quais as origens e consequências dessa exclusão de um modo geral?

SC – Somos desamparados de nossas necessidades mais básicas, como moradia, alimentação, saúde e educação. Sofremos diariamente assédios e violências, inclusive de integridade física doméstica e nas ruas. Somos marginalizados e excluídos. Na Constituição existem leis de direitos humanos, mas na prática, não são exercidos para nós. Somos invisíveis para a sociedade e o mercado de trabalho. Essa que é a verdade. A nossa transexualidade não é uma questão alheia. É uma questão de dignidade. Ninguém tem o direito de decidir o que é melhor ou pior para o outro. Cada um é responsável pelo próprio corpo, desejos e necessidades. É preciso ficar claro de uma vez por todas que transexualidade não é doença. Muito menos safadeza. É só uma condição humana diferente de ser e existir, e que nascemos assim.


Viviane Ávila
é editora do portal O Amarelinho, jornalista multimídia há mais de 15 anos, em impresso, online e audiovisual, além de Comunicação corporativa.