Por Kazuhiro Kurita | 07 outubro 2018

Quando resolveu reformar sua lojinha, Edilma da Silva Santos foi criticada por algumas clientes. Elas perguntavam para que ela estava gastando dinheiro em melhorias se a maioria de suas freguesas era da favela. A microempreendedora não deu ouvidos e transformou a Pimenta Rosa na primeira butique dentro da comunidade de Heliópolis.

Edilma da Silva Santos em sua loja na Estrada da Lágrimas, em Heliópolis

Esta decisão talvez tenha sido um dos segredos para o sucesso de seu empreendimento. “Era uma questão de respeito com as pessoas que ajudavam a fazer meu negócio dar certo, independentemente do local e de suas condições sociais e econômica”, afirma Edilma. Hoje, a Pimenta Rosa não saiu da comunidade, mas se mudou para um amplo espaço na Estrada das Lágrimas, uma via que divide Heliópolis e São João Clímaco.

A proprietária continua morando na favela, onde chegou da Bahia com sete anos de idade. Seu pai trabalhava como ajudante geral e sua mãe em casa da família. Ela, seus pais e mais quatro irmãos moravam em um cômodo de madeira nos fundos do barraco de sua tia. Mas Edilma sempre quis mais do que tinha. Por isso, começou a trabalhar ainda criança. E como a maioria das meninas de baixa renda, casou-se cedo, com 15 anos.

Depois, passou por alguns empregos na informalidade, sempre como vendedora em lojas de roupas, sua paixão. O último trabalho em uma fábrica de fantasias foi com carteira assinada. Nesta época, começou a fazer faculdade de Administração de Empresas e, com o nascimento do filho, precisava de uma grana extra. Como comprava muita roupa, passou a fazer minibazares na firma e em casa com as peças que não tinha usado. Isto a incentivou a abrir  Pimenta Rosa em 2011. No início, Edilma comprava as peças no Brás e Bom Retiro. Ia a pé até a Estação Tamanduateí para pagar só uma condução e voltava carregada de produtos, entre roupas e acessórios. Foram quatro anos de sacrifícios, mas que valeram a pena.

Redes sociais

Com o objetivo de incrementar ainda mais o crescimento da loja, Edilma passou a utilizar as redes sociais. Para isso, participou do projeto Laboratório de Inovação, um programa da ONG UNAS Heliópolis em parceria com o Facebook para potencializar o comércio de micro e pequenos empreendedores da comunidade. “Oferecemos quatro módulos e acompanhamento individualizado de como divulgar produtos e serviços para os moradores da comunidade e região por meio da rede social”, explica Deiliane Martins, educadora e multiplicadora do projeto.

Níneve Ferreira e Deiliane Martins trabalham no projeto Laboratório de Inovação do Facebook

O Facebook na Comunidade foi criado em 2015 e por ele já passaram mais de três mil empreendedores, que somam 50 mil formalizados dentro da própria favela, fora os informais e os que fazem bicos para complemento de renda. A UNAS contabiliza cerca de 200 mil moradores em uma área aproximada de um quilômetro quadrado. Hoje, 90% do bairro conta com infraestrutura urbana, como serviços de água, esgoto, energia elétrica e coleta de lixo, mas não existe transporte público dentro da favela pela dificuldade de se transitar pelas ruelas e becos.

Para Camila Ribeiro, analista de negócios do Sebrae SP, além da falta de mobilidade, existes vários outros fatores para o empreendedorismo nas favelas. Um deles é a falta de emprego formal, seja por preconceito das grandes empresas com relação aos moradores ou a falta de qualificação da maioria. “Mas certamente muitas pessoas empreendem em sua comunidade por perceberem a existência de necessidades até então não atendidas. E montam seus pequenos negócios com produtos direcionados ao dia a dia daquele grupo, alinhado ao perfil dos moradores e do seu potencial de compra, fazendo com que os consumidores não precisem se deslocar aos grandes centros comerciais”, afirma. Segundo a analista, a maioria dos negócios está na área de serviços, como beleza, reparos e consertos e oficinas mecânica, além da fabricação de bolos, comidas caseiras, comércio, minimercados e vestuário. O poder de consumo das comunidades espalhadas pelo país justifica o empreendedorismo interno.

Desafios

Segundo a pesquisa DataFavela, realizada em agosto deste ano pela Locomotiva Pesquisa & Estratégia, o Brasil tem 13,7 milhões de pessoas morando em favelas, movimentando R$ 83,1 bilhões. O estudo revela também que cinco em cada 10 moradores têm intenção de um dia abrir seu próprio negócio.

No entanto, Camila cita alguns desafios para quem quer empreender na comunidade. Ela destaca a dificuldade de acesso ao crédito por causa da resistência e preconceito das instituições financeiras. Outro fator que pode colocar em risco o negócio é a falta de planejamento. “É preciso definir diferenciais, estudar o público-alvo, escolher os canais de atendimento, calcular custos e despesas. Enfim, planejar é reduzir os riscos do negócio quebrar”, ensina. 
Kazuhiro Kurita
é editor da Flamboyant Comunicações, formado em Publicidade e Propaganda e Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero.